Ser ou não ser Gawda

Por FAVITA DIAS

 

“O Senhor dá-me licença?”, perguntei ao entrar no gabinete do Talathi[1] de Curtorim, a minha aldeia.

 

“Sim, entre”, respondeu o Talathi, levantando os olhos dos papéis que tinha à sua frente.

 

Entrei no gabinete e, percebendo que havia outras pessoas à espera, pousei os meus documentos na secretária e sentei-me sem dizer uma palavra.

 

Tinha ido ao Panchayat[2] da aldeia para pedir um relatório ao Talathi, o primeiro passo para conseguir um Scheduled Caste Certificate.[3]

 

Queria candidatar-me ao departamento de Sociologia da Universidade de Goa e o número de vagas era limitado. Alguns dias antes, tinha ido visitar uma amiga que vive por trás da minha casa. Ao ouvir-me falar sobre o curso com tanto entusiasmo, a mãe dela perguntou-me por que razão eu não pedia um certificado de casta para assim aumentar as minhas hipóteses. A primeira coisa que me ocorreu foi: “Como é que ela sabe que a minha família pertence à comunidade Gawda? Isto só pode querer dizer que todo o bairro sabe”.

 

Enquanto eu digeria esta informação, a mãe da minha amiga disse-me que uma outra pessoa da vizinhança conseguira entrar no ensino superior com a ajuda de um certificado de casta. Mais um choque! Eu não sabia que essa família também pertencia à comunidade Gawda. Voltei para casa e perguntei à minha mãe se isso era verdade. Ela disse que sim e que essa mesma vizinha a aconselhara a não pedir um certificado de casta, uma vez que seríamos discriminados, de múltiplas formas, para o resto da vida. Estranhamente, contudo, ela própria tomara a iniciativa de pedir um certificado de casta para o seu filho.

 

Mas eu não queria um certificado de casta apenas para conseguir um lugar na universidade.

“Sim, diga?”, perguntou o Talathi enquanto pegava nos meus documentos. Sem me deixar responder, folheou-os e continuou: “O que é que a menina faz? Trabalha?”.

 

“Sim, trabalho como assistente de investigação para o Centre for Global Health Histories”, respondi.

 

Depois de um breve silêncio, perguntou-me: “Onde mora, ao certo?”.

 

“Perto da capela, ao lado da escola”, respondi.

 

“Humm… Dias… Não creio que haja tribais [Scheduled Tribes][4] nessa zona, ou há? E com este apelido?”

 

Esta pergunta deixou-me sem resposta. Estava com algum receio, pois pouco sabia sobre a presença de tribais na minha zona. Mas lembrei-me do que a minha mãe e a minha tia tinham dito e respondi com firmeza: “Sim, existem tribais nessa área”.

 

“Tem a certeza? Quantas casas de tribais existem lá?”, perguntou-me.

“Sim, tenho a certeza. Há umas três ou quatro casas”, respondi-lhe.

 

Fui ficando cada vez mais nervosa, pois não sabia quase nada sobre as famílias tribais da minha localidade. Nunca me interessara muito por saber essas coisas. Fiz os primeiros anos de escola na St. Joseph High School, em Shiroda, no taluka[5] de Ponda. Estudei nessa escola até ao terceiro ano, altura em que a nossa família se mudou para Curtorim, a cerca de trinta quilómetros de distância.

 

Tinha mais ou menos oito anos quando nos mudámos. A vida era muito diferente em Curtorim. Era grande o entusiasmo com os novos amigos, a nova escola, os novos vizinhos e todas aquelas novas caras. Quando me matriculei na escola de Curtorim, precisei de um período de adaptação não só para me familiarizar com os outros alunos e professores, mas também para fazer novos amigos. Mais tarde, quando passei para o ensino secundário, percebi que não éramos conhecidos apenas pelos nossos nomes e notas, mas também pela nossa casta. Eu conhecia bastante mal a questão da casta. Foi a primeira vez que reparei na sua importância. A minha turma tinha alunos de diversas castas. Havia um grupo de alunos que era conhecido por “atrasado” [backward], mas sempre achei que eles eram ricos e queria fazer parte da sua comunidade. O outro grupo de alunos não era “atrasado” e, segundo a minha percepção, era, em alguns aspectos, mais “culto” e “desenvolvido”. Ocorreu-me, naturalmente, uma questão: a que grupo pertenço eu? Eu achava que fazia parte do grupo de alunos cultos e desenvolvidos.

 

Mais tarde, à medida que fui avançando nos estudos, comecei a ter uma ideia mais clara sobre dois tipos de comunidades – Shudras e Gawdas. Certa vez, numa conversa entre amigos, os meus colegas quiseram saber a minha casta. Respondi-lhes que era Shudra. Tinha chegado a essa conclusão ao comparar a forma como vivíamos com o que observava na escola. Na verdade, venho de uma família que pertence à comunidade Gawda, mas a minha mãe é Shudra. Em casa, nunca se falava de Gawdas ou Shudras. No entanto, fazia-se sempre comparações com os Brâmanes, pelo que tinha a perfeita noção de que não era Brâmane. Nessa tarde, acabei por perguntar à minha mãe qual era a nossa casta. Ela ficou boquiaberta. Porque queres saber a nossa casta? Quem te perguntou? Não deves acreditar nessas coisas… Falou sem parar. Mas, por fim, disse-me que pertencíamos à comunidade Gawda. Fê-lo apenas porque a minha prima mais nova começou a rir e disse: “Ami ani khuinchi ami gawdi” (Nós também somos Gawda). Fiquei sem saber o que dizer aos meus amigos. Pensei em dizer-lhes a verdade mas acabei por desistir porque me senti desconfortável com a ideia.

 

A questão da casta só voltou a ser assunto de conversa entre os meus amigos quando chegou ao nosso grupo um rapaz que pertencia à mesma comunidade que eu. Estávamos todos a conversar informalmente quando o tema das castas veio à baila. Fiquei em silêncio e este novo amigo disse: “Hanv baba gawdi” (Eu sou Gawda). Foi então que anunciei, atabalhoadamente, que também era Gawda. Os meus amigos não tiveram qualquer reacção. Notei, contudo, que embora tivesse revelado que era Gawda, o meu novo amigo fizera-o em voz baixa. Percebi que se sentia tão pouco à vontade em revelar a sua casta como eu.

 

“Quem é o seu Panch?”,[6] continuou o Talathi.

 

“O Sr. Cardozo”, respondi.

 

“Ele conhece-a?”

“Sim”, respondi prontamente.

 

“Conhece o Sr. e a Sra. Fernandes? Eles conhecem-na? A Sra. Fernandes foi a sua ex-Panch, não foi?”. Bombardeou-me com perguntas.

 

“Sim, conheço-os. E eles também me conhecem. Moramos no mesmo bairro”, respondi.

 

Em tempos, o Sr. Fernandes tinha aconselhado a minha mãe a pedir um certificado de Scheduled Tribe. Tinha, portanto, alguma esperança de que ele pudesse confirmar que éramos Gawda. O Talathi decidiu telefonar a algumas pessoas para investigar a identidade da nossa família.

 

“Ninguém atende”, disse o Talathi depois de algumas tentativas. Fiquei um pouco desanimada. Foi então que entrou na sala uma senhora com o seu filho. Percebi, pela maneira como falava concani, que era Brâmane. Lembrei-me que quando a minha família paterna nos vinha visitar, a minha tia, que passou a maior parte da sua vida em Bombaim, costumava dizer: “Não usem a palavra tiyani (termo coloquial para o pronome eles, que permite identificar prontamente um Gawda); nós dizemos tenni (palavra mais sofisticada para “eles”)”. Dizia-nos também “Gawdi te Gawdi uttole kennach sudorpana” (“Vocês sempre serão Gawdi e nunca hão-de subir na vida”). Percebo agora o que eles devem ter sentido naquela altura. A minha prima mais nova contou-me uma vez um episódio que me incomodou muito. Ela ofereceu uma camisa verde a um amigo e ele respondeu-lhe: “Só o vosso tipo de gente é que usa essas cores, nós não”. Tive em tempos uma proposta de casamento de uma família de Brâmanes cristãos e a primeira reacção da minha mãe foi: “Avoi…Bamon…Chamti te!” (Ó, os Brâmanes são sempre forretas). Mas depois também me disse que não levantaria quaisquer objecções se eu quisesse aceitar.

 

“O seu Panch também não atende. A quem devo pedir informações sobre si?”

 

“Entre”, disse o Talathi para alguém.

 

Voltei-me e vi o primo de uma amiga que vivia perto de nossa casa. Estava a entrar com um formulário na mão. Fiquei com receio de que ele visse os meus documentos e fosse contar a toda a gente. Para meu alívio, saiu pouco depois.

 

Estava no gabinete do Talathi há já meia hora e começava a achar que ele não ia dar-me a carta de aprovação, uma vez que não havia provas de que eu pertencesse a uma comunidade tribal.

“Quando os pais têm um certificado, é tudo muito mais fácil”, disse o Talathi, quebrando o silêncio.

 

“Os meus pais tiveram vergonha de pedir um por causa da discriminação. Mas a minha prima tem. Se quiser, posso trazer o certificado dela”, disse.

 

Sei que os meus pais devem ter tido boas razões para não pedirem um certificado ST. Talvez tenham querido poupar os seus filhos ao estigma de serem identificados como Gawdi. Por isso, não os censuro. De facto, lembro-me de a minha mãe me ter dito que teve de enfrentar o seu pai para poder casar com o meu, só porque ela era Shudra e o meu pai era Gawdi. Quem devo culpar por termos sido excluídos da comunidade dos primeiros habitantes de Goa? Julgava que era algo de que nos devíamos orgulhar; se é assim, por que razão devemos escondê-lo? Aprendi a admirar as danças e canções Gawda à medida que fui lendo coisas sobre o assunto. Mas não tenho um conhecimento profundo sobre a comunidade. Se tivesse, as coisas teriam sido diferentes.

“Bom dia”, ouvi uma voz conhecida dizer, enquanto estava perdida nos meus pensamentos. Voltei-me e vi que era um amigo do meu pai, acompanhado de um vizinho.

 

“Eu conheço-os. Ele é amigo do meu pai e o outro senhor é meu vizinho. Pode perguntar-lhes sobre mim”, apressei-me a dizer ao Talathi.

 

Este vizinho também pertencia à Scheduled Tribe. Mas eu não queria que ele soubesse que estava a pedir um certificado ST, porque sabia que ele ia contar a toda a gente. A minha mãe tinha-me dito que fora este vizinho quem aconselhara os meus pais a não pedirem um certificado ST. Mas eu já não queria saber. Só queria terminar o que tinha ido fazer e sair dali o mais rapidamente possível. O Talathi não mostrou qualquer interesse em perguntar-lhes fosse o que fosse a meu respeito. Estava ocupado com um telefonema. Estava a tornar-se insuportável continuar sentada naquele gabinete.

 

Antes de ir ao Panchayat, tivera já de pedir um Samaj Certificate e entregá-lo, com muitos outros documentos, ao Mamlatdar.[7] Não foi muito complicado. Depois disso, tive de ir pedir um relatório ao Talathi. Nunca imaginei que fosse tão difícil convencê-lo. Nem sequer disse ao meu irmão o que andava a fazer. Quando ele me perguntou para que servia toda aquela documentação, a minha mãe disse-lhe que era para pedir a renovação da carteira de emprego. Fiquei em silêncio. Não sei porquê. Quando o meu pai quis saber por que razão eu queria um certificado de casta, a minha mãe disse-lhe, fazendo fé nas minhas palavras, que era para o exame do NET (National Eligibility Test).[8] De qualquer modo, ambos me apoiaram incondicionalmente.

 

“Vá tirar uma fotocópia disto e volte cá”, disse-me o Talathi enquanto me entregava o formulário de aprovação.

 

“Há alguma casa de fotocópias aqui perto?”, perguntei com entusiasmo.

 

“A menina é mesmo de Curtorim?”; o Talathi parecia, uma vez mais, intrigado.

“Sim”, respondi.

 

“A menina mora aqui, estudou aqui e não sabe onde é a casa de fotocópias?”

 

“Só conheço as do mercado. Não conheço nenhuma aqui. Talvez seja uma loja nova”, respondi. E saí rapidamente do gabinete.

 

Fiz a fotocópia do formulário de aprovação numa loja ao lado do Panchayat e voltei ao Talathi.

“Preencha”, disse-me ele. “Mas espero não vir a ter nenhum problema, está bem?”, acrescentou.

“Não, de maneira nenhuma”, garanti-lhe. E, passado pouco mais de uma hora, saí do seu gabinete.

O último passo para conseguir o certificado de ST era entregar este formulário de aprovação no gabinete do Mamlatdar. Tudo correu sem problemas. Tive de entregar o certificado no Tribal Welfare Office e, por fim, consegui o meu certificado de ST.

 

Terminado o processo, ainda me interrogo se estarei realmente preparada para anunciar ao mundo que sou uma Gawdi.

 

Falo abertamente sobre a minha identidade tribal apenas com pessoas que sinto que me compreendem. Tive um momento de hesitação quando escrevi num formulário de entrevista que pertencia à comunidade tribal, ponderando se deveria realmente fazê-lo. Havia naquele local algumas pessoas que me conheciam e, naquela altura, tinha alguma vergonha da minha identidade ST. Mas ganhei coragem e escrevi a verdade. Às vezes, falo abertamente sobre a minha identidade tribal; noutras ocasiões, apetece-me escondê-la. Parece-me, por vezes, que coloco a máscara de Gawdi quando vejo a possibilidade de retirar daí algum beneficio, removendo-a quando regresso ao mundo real. Ao fazê-lo, sinto que estou a perpetuar a discriminação… Concordo que as pessoas não devem ser discriminadas com base na tribo, na casta ou na religião. Mas, por outro lado, talvez eu também discrimine os outros. Lembro-me de ter recusado propostas de casamento só porque os rapazes eram de famílias cristãs de casta alta. Também já reparei que as pessoas da minha aldeia e da minha família ainda chamam “certificado de casta” ao “certificado de tribo”. Eu própria usei as duas palavras, ao longo deste texto, como se fossem equivalentes. Concluo que as pessoas não sabem a diferença entre casta e tribo. Usam muitas vezes palavras como Casta-che (de casta) mas nunca Triba-che (de tribo). Não tenho qualquer problema em usar a expressão Scheduled Tribe, mas o meu certificado diz CERTIFICADO DE CASTA. E, no final, acrescenta “pertencente à scheduled tribe Gawda”. Por conseguinte, eu também não sei que termo utilizar.

 

Aguardo para ver o que esta nova identidade me reserva. Nem sequer sei se os meus primos, que sempre viveram em Bombaim, têm a noção de que somos Gawdis. Se sabem, como se sentem em relação a isso? Terá alguma importância para eles? Por que razão fiquei em silêncio quando o meu irmão perguntou o que se passava? Li uma vez no jornal que a minha aldeia tem três bairros maioritariamente habitados pela comunidade Gawdi. Até hoje não sei quais são. Não sei se quero que os meus pais saibam que estou a estudar ou a escrever sobre a minha identidade tribal. Será que o faço para eliminar as diferenças de casta ou para esconder a minha casta? Não sei o que significa ser Gawdi. Por enquanto, não tenho um sentimento forte de pertença em relação à minha tribo. Tenho vivido como uma não-Gawdi mas não posso dizer que não sou Gawdi.

 

Estarei numa espécie de crise de identidade? Será que a minha vida vai continuar a ser a mesma, ou será que mudará para sempre? Quererei, de facto, esta identidade? Se sim, será apenas pelos benefícios que me traz? Não estarei eu a encorajar a discriminação? Os meus pais sempre me mantiveram longe das diferenças de casta/tribo. Serei capaz de enfrentar a discriminação, se alguma vez tiver de me confrontar com ela?

 

Agora que assumi a minha identidade tribal, penso muitas vezes na reacção de outros Gawda. Irão aceitar-me ou pensarão que sou apenas uma oportunista, alguém que adquiriu o certificado tribal apenas pelos seus benefícios? Sinceramente, não tenho resposta para isso. Não vou mentir e dizer que não usarei o meu certificado para fazer valer os meus direitos. Mas, mais importante do que isso, tenho o certificado para me ajudar a chegar a uma conclusão sobre a minha identidade. Como posso escrever nos formulários, ou noutro local qualquer, que pertenço a uma categoria geral quando sei que isso não é verdade? Além disso, se eu escrever que pertenço à comunidade Gawda, terei de prová-lo. Não ficarei, por conseguinte, de consciência tranquila se não tiver um certificado, mas se o tiver é a sociedade que não me deixa em paz. Na verdade, temo que a minha própria comunidade possa questionar as razões que me levam a querer adoptar uma identidade Gawda, uma vez que nunca sofri qualquer tipo de discriminação e sou assolada por todos estes receios. Podem pensar que sou como aquelas pessoas que obtêm certificados falsos para lhes roubarem as suas oportunidades.

 

Se pensam que nunca fui vítima da discriminação de casta, tudo o que posso dizer é que não estaria aqui a escrever sobre a minha experiência se não fosse esse o caso. Na verdade, posso vir a ter de enfrentar uma dupla discriminação: primeiro, por parte dos não-Gawda, por ser Gawda; e, segundo, por parte dos Gawda, que podem pensar que eu estou a usar a minha identidade Gawda apenas para daí retirar benefícios pessoais. Se o tratamento fosse igual para todas as castas, ser-me-ia perfeitamente indiferente saber que sou Gawda. Mas como não é esse o caso, sinto que sou vítima do sistema de castas.

 

Agora que passei o meu exame NET, penso que há mais probabilidades de ser rotulada como uma oportunista. Vão dizer que passei o exame apenas por causa do meu certificado e não por mérito próprio. Sei que alguns dos meus amigos que pertencem à categoria geral não foram aprovados, embora tenham conseguido uma classificação mais alta do que a minha. Pergunto-me como se sentirão em relação a isto. Também devem sentir-se discriminados. Devo, portanto, sentir-me mal por eles ou feliz por ter passado o exame? De certa maneira, sinto que o facto de ter adoptado a minha identidade tribal pode criar problemas, não só a mim mas também a outros membros da comunidade tribal. Poderá haver maior oposição ao sistema de quotas.

 

Há momentos em que gostaria de ser conhecida apenas por Favita. Em que preferia não ter descoberto a minha identidade tribal e não ter de enfrentar esta situação. Mas este processo marcou-me. Transformou-me numa nova pessoa. Uma pessoa com um conjunto de novas questões que requerem novas respostas. Espero apenas ultrapassar esta confusão e perceber com maior clareza o que quero fazer e onde me quero posicionar. Também gostaria de saber se há outras pessoas a enfrentar crises semelhantes à minha.

Traduzido por Dr. Monica Saavedra e Manuel J. Magalhães

 

(This Portuguese translation was published in Boletim da Casa da Goa, September-October 2016. The original English version first appeared here)

 

[1] Funcionário do corpo administrativo da aldeia, encarregado de funções burocráticas.

[2] Órgão administrativo de uma dada aldeia, constituído por um grupo de cinco pessoas democraticamente eleitas.

[3] Documento que prova a pertença a uma determinada casta ou tribo, mais especificamente as que são consideradas socialmente desfavorecidas (scheduled ou “classificadas”), de acordo com a Constituição Indiana.

[4] Termo que, no caso de Goa, se refere aos indivíduos pertencentes aos grupos populacionais normalmente tidos como autóctones.

[5] Subdivisão de um distrito,[o concelho do antigo Estado da Índia Portuguesa]. Grupo de várias aldeias organizado para efeitos de administração fiscal.

[6] Um dos membros eleitos do Panchayat.

[7] Samaj Certificate – Certificado emitido por um organismo não governamental com o objetivo de garantir os direitos de uma determinada casta ou comunidade. Mamlatdar – magistrado nomeado de acordo com o artigo 20º do Indian Criminal Procedure Code de 1973. É um funcionário superior nomeado pelo governo estadual e preside ao Taluka.

[8] Teste que avalia os candidatos a lugares de ensino nas faculdades e universidades indianas, bem como a atribuição de bolsas para investigadores em início de carreira.

Bread and Circuses

By AMITA KANEKAR

 

902 buses were reportedly organised by the BJP to ferry people from distant villages to Panjim for Manohar Parrikar’s birthday party, resulting in a city that was completely choked with traffic, amidst BJP cheers about the popularity of their leader. Behind the cheers though, what was obvious and heartening was that the arrangements of free transport, snacks, and other goodies were motivated by the obvious fear that nobody would turn up for the spectacle otherwise; this fear is a compliment to Goans’ good sense, even if this good sense did not extend to refusing the all-paid-for circus.

 

‘Bread and Circuses’ is a term that comes from classical Rome, coined by the poet Juvenal to describe the way in which common Romans were kept happy and quiet, thanks to food doles and free spectacles of violent entertainment, leaving the republican government free to do whatever it wanted. It is still used for broadly the same thing, the provision by governments of pleasurable distractions for the people, in order to rule as they wish. And as an example of it, we have today’s Goa.

 

Let us remember another and recent evening of state-organised mass bussing. The ten-day-long International Film Festival India (IFFI) was on in Panjim at the time, in its usual spectacular way. On November 20th, the very first day of the spectacle, a couple of film students were arrested from the IFFI inauguration venue and whisked away to a distant police station; the students had been trying to draw attention to the problems they were facing at FTII, India’s premier film institution. The second day saw another student arrested, as well as another unrelated protest: a public demonstration at Panjim’s Ferry point, to demand serious investigation into the strange death of Fr. Bismarque Dias, well-known opponent of much of the state-backed land-grab happening all over Goa. A huge number of police broke up the demonstration before it even began, pushing people into buses, to ferry them to police stations in distant villages. Some 105-odd people were arrested and released only at night.

The purported crime of these arrestees was to gather in public despite the imposition of Section 144 on the city; Section 144 being a law in India’s Criminal Procedure Code that bans the holding of public meetings, the gathering of more than 5 people in public, also public banners, placards and arms. But IFFI was on at the time, with banners all over the city, trees groaning under strings of lights, pavements likewise with strings of food and drink stalls, open-air music and film shows at a number of public spaces, and everything else that would lead to hundreds of people, in large and small groups, gathering all over. A bit bizarre, one might say – to ban gathering in public in the middle of a big international jamboree. But the law, although in place all over the city, was only applied selectively. It was only for the protestors, both those grieving Fr Bismarque’s death and those worried about FTII. The FTII student’s arrest on November 21st in fact did not even have this fig-leaf of law to cover it; he was arrested within the IFFI premises (for which he was a registered participant), for reportedly doing nothing more than wearing an FTII t-shirt.

 

What better place to discuss the problems in film education, if not at a film festival, among international film-makers, film students, and audiences? But that wouldn’t be mindless spectacle. So IFFI continued, the usual buffet of mostly liberal and anti-oppression films from all over, which this time notably included, along with the mandatory WWII Holocaust film to keep sympathy alive for Israel, films on the holocaust in Palestine BY Israel. So while film buffs ensconced in cool auditoria were lost in all those troubling, or cathartic, or sometimes almost holier-than-thou, kind of feelings produced by serious cinema on serious issues; and outside these venues, other bon vivants enjoyed live music and fancy cuisines from all over – but of only the shudh brahmanical variety, mind you – still others, not that far away and including some women above the age of 70, were waiting to be released from prison.

 

The FTII protestors were trying to ‘tarnish India’s image’ said a Union Minister to the press later. Image is always important for Bread-and-Circus politics, right from the time of the Nazis with their grand Berlin Olympics in 1936, which conveyed a glowing and united image of Germany to cover up the monstrousness just behind. And of course, these arrests in Panjim were not the worst the state can do, not by far. People have been found dead in police custody in Goa; protestors against land-grab, house demolitions, and polluting projects have been beaten up by bouncers, lathi-charged by the police, even shot. But normally not when the world is watching. The fact that this government had to do this, had to arrest film students and ban student films at an international film festival, and then ‘disappear’ 100 people from the heart of the capital, even as it basks in the public eye, is also a sign of desperation, a sign that it cannot hide the dissent, a small victory against the all-round attempt to stifle the public will.

 

(The title and idea of this essay is owed to a comment about IFFI by fellow-arrestee, Dr Luis Dias.)

 

(First published in O Heraldo, dt: 17 December, 2015)